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Pagamento do pró-labore: afinal, ele é obrigatório?

Pagamento do pró-labore: afinal, ele é obrigatório?
Escrito por Luanna Araujo
Atualizado em: 10/06/2019 Tempo estimado de leitura: 6 minutos

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O pagamento do pró-labore é um processo de remuneração estabelecido pela a maioria das empresas, mas é preciso entender bem o seu conceito, além dos seus detalhes.

O termo pró-labore advém do latim e significa “pelo trabalho”. Essa expressão é utilizada para representar a remuneração recebida pelo sócio administrador pelo trabalho executado na empresa. Ou seja, o pró-labore é uma espécie de “salário” pago ao sócio pela prestação dos seus serviços.

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Pró-labore x Dividendos

O pró-labore difere dos dividendos, pois este último tem relação direta com a divisão dos lucros da empresa e depende da participação de cada sócio no capital social, ou seja, os dividendos correspondem à remuneração pelo capital investido na empresa. Enquanto o pró-labore é a remuneração paga ao sócio responsável pela administração da empresa.

Além disso, de acordo com a legislação trabalhista, o pagamento do pró-labore também não se confunde com o salário, pois sobre essa remuneração não incide encargos como o FGTS ou outros direitos como 13º salário e férias. Ainda que exista a possibilidade desses benefícios serem negociados entre a empresa e o sócio.

Mas afinal, o pagamento do pró-labore é obrigatório?

Para falarmos sobre este assunto devo te explicar primeiramente que o sócio é um contribuinte individual, e para que ele seja considerado um segurado obrigatório da Previdência Social devem ser atendidas algumas condições.

Temos o seguinte enunciado na alínea f, inciso V do art. 12 da Lei nº 8.212, de 24 de julho de 1991:

Art. 12. São segurados obrigatórios da Previdência Social as seguintes pessoas físicas:
[…]
V – como contribuinte individual:
[…]
f) o titular de firma individual urbana ou rural, o diretor não empregado e o membro de conselho de administração de sociedade anônima, o sócio solidário, o sócio de indústria, o sócio gerente e o sócio cotista que recebam remuneração decorrente de seu trabalho em empresa urbana ou rural, e o associado eleito para cargo de direção em cooperativa, associação ou entidade de qualquer natureza ou finalidade, bem como o síndico ou administrador eleito para exercer atividade de direção condominial, desde que recebam remuneração; (destaque nosso).

Segundo a legislação previdenciária, para que o contribuinte individual seja qualificado como segurado obrigatório é necessário “que ele receba remuneração decorrente de seu trabalho em empresa”. Então aqui temos duas condições para essa obrigatoriedade, a primeira é que a pessoa física exerça uma atividade na empresa, seja um trabalhador, a segunda é que esta atividade seja remunerada.

Assim não será classificado como segurado obrigatório o sócio que não prestar serviços à empresa da qual é sócio, isso pode ocorrer quando o sócio é apenas um investidor e recebe a distribuição de lucros. Outra situação é quando o sócio presta serviços, mas em virtude de dificuldades financeiras da empresa ele não recebe qualquer remuneração.

Quando é o momento de pagamento do pró-labore?

Esse mesmo entendimento é utilizado quanto a obrigatoriedade do pagamento do pró-labore. A empresa deve pagar pró-labore ao sócio se forem cumpridas pelo menos uma das condições mencionadas, que é o sócio prestar serviço à empresa ou a atividade executada ser remunerada.

Cabe destacar que não será cabível situações em que a retribuição pelo trabalho é “maquiada” como antecipação de lucros paga mensalmente ou em qualquer outra periodicidade.

É importante ressaltar que por mais que a lei não estabeleça diretamente a obrigatoriedade do pagamento do pró-labore, ou mesmo a sua periodicidade, se existir a prestação do serviço e o pagamento mensal ao sócio, é fundamental que essa remuneração seja registrada como pró-labore.

Então fique atento! Atribuir denominações diversas como adiantamentos de lucros ou qualquer outro título, pode resultar em riscos para a sua empresa.

O motivo é que há incidência tributária sobre o pró-labore, como a contribuição previdenciária e o imposto de renda. Em virtude disso, algumas empresas ao invés de pagar o pró-labore, realizam adiantamentos de lucros de forma disfarçada, tentando se esquivar da carga tributária.

Contribuição Previdenciária sobre o Pró-labore

No tocante à contribuição previdenciária o Regulamento da Previdência Social (Decreto 3.048 de 1999), esclarece que:

Art. 201. […] § 5º No caso de sociedade civil de prestação de serviços profissionais relativos ao exercício de profissões legalmente regulamentadas, a contribuição da empresa referente aos segurados a que se referem as alíneas “g” a “i” do inciso V do art. 9º, observado o disposto no art. 225 e legislação específica, será de vinte por cento sobre:
I – a remuneração paga ou creditada aos sócios em decorrência de seu trabalho, de acordo com a escrituração contábil da empresa; ou
II – os valores totais pagos ou creditados aos sócios, ainda que a título de antecipação de lucro da pessoa jurídica, quando não houver discriminação entre a remuneração decorrente do trabalho e a proveniente do capital social ou tratar-se de adiantamento de resultado ainda não apurado por meio de demonstração de resultado do exercício.

O inciso I traz a regra que a remuneração a título de pró-labore deve ser registrada regularmente na contabilidade.

Já o inciso II esclarece que terá incidência tributária a antecipação de lucro que não possua qualquer discriminação entre a remuneração decorrente do trabalho e a proveniente do capital social ou se ainda não tiver sido apurado lucro por meio de demonstração de resultado do exercício.

Portanto, a discriminação dos valores pagos aos sócios é fundamental em termos tributários. E para fins previdenciários não se pode tratar todo o montante pago ao sócio como distribuição de lucros, uma vez que parte dos valores pagos terá natureza jurídica de retribuição pelo trabalho executado, sujeito assim a incidência da contribuição previdenciária.

Conclusão

Com base no que vimos, o pagamento do pró-labore não é obrigatório, pois o sócio pode prestar serviços à empresa e receber apenas distribuição de lucros, conforme definido em contrato social.

No entanto, se o sócio pretende fazer retirada antecipada de lucros em substituição ao pró-labore, é necessário que a empresa realize de forma prévia a apuração do lucro por meio da demonstração de resultado do exercício (DRE).

Por isso atenção! Fazer antecipação de lucros sem qualquer comprovação contábil é um risco, pois caso a empresa tenha prejuízos, tudo que foi recebido pelo sócio será tributado como remuneração e estará sujeita à incidência tributária.

Agora que você viu que o pró-labore não é obrigatório, veja neste artigo como definir o pró-labore para os sócios da empresa garantindo a saúde dela.

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Sobre o autor

Luanna Araujo

Graduada em Ciências Contábeis pela Unicatólica, com MBA em Gestão e Planejamento Tributário pela UNI7, atua há mais de 8 anos nas áreas Contábil e Trabalhista. Especialista em eSocial, atualmente Analista de Capacitação no Grupo Fortes, sendo responsável pela elaboração de materiais técnicos e de apoio aos profissionais das áreas Gestão de Pessoas e Contabilidade. Além de atuar também como instrutora do programa Fortes na Prática, ministrando treinamentos com foco em legislação trabalhista, previdenciária, fiscal e tributária.

7 comentários

  • Olá Luanna, primeiramente parabéns pela clareza na explicação do assunto neste artigo. Gostaria de tirar uma dúvida: neste artigo, você deixa claro na conclusão que o pagamento de pró-labore não é obrigatória, pois o sócio pode prestar serviços à empresa e receber apenas distribuição de lucros, conforme definido em contrato social, porém, o artigo da Geordânia Oliveira deste site (atualizado em 07/06/2019) afirma que “A retirada do pró-labore é obrigatória, mas não tem um valor definido – existindo apenas o piso de um salário mínimo nacional. O sócio – administrador deve retirá-lo independentemente da distribuição dos lucros, que é um valor de retirada relativo ao capital social, enquanto o pró-labore é a remuneração pelo trabalho mensal”. Afinal, o pagamento de pró-labore à sócio administrador é obrigatório ou não? Obrigado.

    • Olá José! Agradeço pelo elogio. Sobre a sua dúvida, em ambas as postagens foi explicado que o pró-labore deve ser pago caso o sócio exerça alguma atividade operacional na empresa, tornando-se assim um segurado obrigatório da Previdência.

  • Boa noite, Luanna.

    Para enriquecer a discussão, na conclusão, você afirma que “Com base no que vimos, o pagamento do pró-labore não é obrigatório, pois o sócio pode prestar serviços à empresa e receber apenas distribuição de lucros, conforme definido em contrato social”. Entretanto, tanto no parágrafo anterior à conclusão do artigo como no seu comentário de 31/07, às 15:20, eu entendo que sua posição é no sentido oposto: “o pagamento do pró-labore não é obrigatório, pois o sócio pode prestar serviços à empresa e receber apenas distribuição de lucros”. Ora, prestar serviços e exercer uma atividade operacional na empresa parece ter o mesmo significado, por isso gostaria que você esclarecesse.
    No meu caso, sou advogado e sócio de uma sociedade unipessoal de advocacia. Já sou aposentado pelo regime geral (INSS), sendo absolutamente sem retorno as minhas atuais contribuições previdenciárias sobre o pró-labore. Pago porque recebi orientações no sentido de que é obrigatório o pagamento de pró-labore, pois não pode existir uma empresa sem pelo menos um gestor. E também, vários sites de orientação aos advogados orientam sobre o risco de, não existindo pelo menos um pró-labore de um salário mínimo, o fisco reclassificar a distribuição de lucros para o sócio (individual) como renda pessoa física tributável.
    Gostaria de conhecer sua opinião a respeito.
    Agradeço antecipadamente sua ajuda.

  • Desculpe Luanna, copiei errado uma afirmação do texto. Na segunda transcrição o correto seria o trecho “para fins previdenciários não se pode tratar todo o montante pago ao sócio como distribuição de lucros, uma vez que parte dos valores pagos terá natureza jurídica de retribuição pelo trabalho executado, sujeito assim a incidência da contribuição previdenciária”.

    • Olá Alexandre! Vou esclarecer melhor esse trecho “para fins previdenciários não se pode tratar todo o montante pago ao sócio como distribuição de lucros, uma vez que parte dos valores pagos terá natureza jurídica de retribuição pelo trabalho executado, sujeito assim a incidência da contribuição previdenciária”

      Quis dizer que quando o sócio recebe uma retribuição pelo trabalho executado ele torna-se um segurado obrigatório da Previdência, tendo assim que recolher a contribuição previdenciária.

      Quanto ao pró-labore, entendo que ele não é obrigatório, pois não existe previsão legal obrigando o pagamento de tal. Logo, de início não haveria nenhum problema em não se retirar o pró-labore.

      Entretanto, como você bem comentou a Receita Federal pode entender que o sócio que trabalha na empresa e recebe apenas distribuição de lucros deveria na verdade receber o pró-labore, e consequentemente teria que recolher imposto de renda e contribuição previdenciária.

      Percebe-se assim que existe um risco, e por isso o recomendável é que o pagamento seja feito, porém, obrigatoriedade por previsão legal não existe.

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